Vi o corpo da mulher tombar à minha frente. Um tiro havia acertado mesmo no meio da sua cabeça.
Olhei procurando a o dono da arma, e foi um alivio quando vi o André imóvel junto à porta.
Observei com cuidado, ele tinha uma expressão estranha. A sua expressão tinha um misto de preocupação e do tipo "eu fui capaz de fazer isto".
- André?- Sussurrei.
Ele olhou-me.
- Estás bem?
- Estou.- Respondeu-me.- E tu?
- Estou...graças a ti... Obrigado.
- Não tens que agradecer.- A sua cara tornou-se séria.- Mas nunca mais faças isso. Tu nem imaginas o quão preocupado eu fiquei quando não te encontrei em lado nenhum, e depois... quando te vi com aquela...coisa. Foi assustador.
Eu pude ver o medo na sua cara. Era o medo de perder alguém, um amigo.
-Não te preocupes eu não faço.
- Prometes?- Parecia um menino pequeno a pedir à mãe que não deixa-se.
- Prometo.- Respondi.
O rapaz moreno abraçou-me com força, eu respondi ao abraço.
Nesse momento senti o sangue passar pelo meu corpo a mil, o meu coração acelerava mas ao mesmo tempo ameaçava parar.
Olha-mo-nos e então ele disse:
- É melhor irmos embora devem estar preocupados e por onde essa coisa entrou podem vir mais.
Larga-mo-nos, embora eu não quisesse e fomos ter com o resto do grupo.
- Onde vocês estavam?- refilou Fernando.
- À procura da chave e encontramos.- Mostrei o objecto metálico.
- Boa!- Soltou Diogo.
Eu não fazia ideia como iríamos sair sem que nenhum zumbi entrasse mas Fernando estava determinado.
A pedido dele fui para o lugar do condutor, todos estavam já no carro, à excepção do António e do meu irmão. Neste momento era quando tudo se complicava, o Fernando e o António tinham que conseguir abrir o portão e entrar no carro sem que fossem atacados, mas como? Se a rua estava cheia daquelas coisas e mesmo que estivessem entretidas com o V. e resto do pessoal eles iriam notar o movimento que vinha desta casa.
Aproximei-me do portão o mais que pude. André, Diogo tinham as armar a postos assim como Anabela. Fernando e António tinham as mãos já no portão, até que...
Flashback.
A garagem estava menos desarrumada que o quintal mas estava cheia de caixas de cartão, algumas formavam grandes colunas. Nessas caixas estava escrito "fogo de artificio".
António e Fernando procuram a ver se a chave estava...
Fim de Flashback.
-Esperem.- Gritei mesmo no momento em que os dois iam puxar as grandes portas.
Todos me olharam.
- Fogo de artificio.
- O quê?!- Alguns exclamaram confusos.
- O que tem o fogo de artificio?- Perguntou António.
- À caixas com fogo de artificio lá dentro, podemos distrai-los. Será mais fácil escapar e melhor para o V. e o pessoal.
Concordaram todos comigo, o fogo de artificio podia realmente tornar a nossa fuga mais fácil.
Os rapazes foram tratar de tudo, Diogo e António iam lançar o fogo de artificio e o Fernando e o André estavam à espera no portão. Teriam de agir rápido, pois mesmo com a vantagem do fogo de artificio seria difícil passar muito tempo sem sermos notados.
Todos prontos era só lançar a confusão. E assim foi.
Diogo e António lançaram os foguetes inclinados para a direita. Logo que ouvimos o barulho do fogo de artificio mais barulho se juntou à festa. Os monstros estavam entretidos, era a nossa chance.
Duas pessoas juntaram-se no carro, António e Diogo. O portão foi aberto de modo ao carro passar, André e Fernando correram para o carro, já sendo perseguidos por zumbis.
André sentou-se a meu lado, Fernando ficou atrás.
- Arranca, arranca.- Disse o meu irmão apressado.
- Calma, estou a ir.
O carro andou a grande velocidade atropelando zumbis.
-Vai pela direita tem menos zumbis.- Recomendou Anabela.
- Ok.
Estávamos em andamento quem sabe a caminho da salvação.
Olho para o telhado e sinto uma ponta de tristeza quando vejo V. dando tiros em zumbis que tentam desesperadamente chegar ao carro. Mas logo desvio o olhar, além de ser demasiado doloroso agora precisava de olha para a estrada e garantir que vamos chegar o mais longe possível destas coisas.
Fernando dá-me as instruções que devo seguir até trocarmos de condutor.
- André liga o radio, quem saiba haja alguma estação ainda em funcionamento.- Pede Diogo.
André viaja entre estações mas nenhuma dá sinais de vida, o país estaria perdido. O país segundo o que sabemos, ou melhor segundo o que não sabemos este terror podia estar já espalhado pela Europa ou até pelo mundo.
- "Bom dia a todos os sobreviventes..."- Diz uma voz jovem e masculina vinda do aparelho.- "Matou muitos zumbis hoje..."
- Mas que raio...- Diz António.
- "...Se não. Não se preocupe, o importante é que sobreviva. Agora a nossa amiga Sara vai-nos informar das ultimas noticias."
- "Muito bem vindos ouvintes, aqui na radio que vos mantém apare de tudo o que se passa.
"Segundo ultimas informações o governo está a enviar militares tanto para as fronteiras marítimas como para os Pirenéus para que nos certifiquemos que os outros países não fiquei infectados, mas a verdade é que ainda não ouvimos noticias sobre os restantes países da Europa. Esperemos em breve poder comunicar-vos a esse respeito. Passo de novo para ti, Mike.
Ouvimos com atenção.
-"Obrigado Sara. Lamentamos não poder ajudar quem está em situações difíceis no momento. Para novos ouvintes voltaremos a falar sobre o vírus celotrangénico daqui a duas horas. Aguardem novas noticias."
Olhamos uns para os outros.
- O que será que está acontecer?!- Desabafa André.
- É bom saber que é só na Europa.
- E esperemos que continue assim Diogo.- Fala Anabela.- Para onde vamos já agora?
-Ter com os meus pais, eles estão dentro do assunto e podem ajudar-nos a sobreviver.
Ninguém falou de novo. Todos olhavam pela a janela vendo as ruas cheias de sangue e corpos.
Não se viam muitos zumbis, apareciam dois ou três em cada rua, e todos eles burros tentando correr atrás do carro.
Como se não falta-se nada começou a chover, as ruas escorriam sangue e lama. O cenário eram lamentável, horrível. Mas eram bom ter alguma normalidade no meu de tudo o que estava a acontecer. A chuva tornou-se agradável passado alguns minutos.
-Então o que fazias antes disto tudo?- Perguntei ao André, que estava mesmo a meu lado.
- Estudava, trabalhava...
- Ias seguir o quê?
- Engenharia mecânica.
- É lá, para isso é preciso muita matemática.- Ele riu mostrado os seus dentes brancos.
- E tu?
- Ainda estava decidir, mas se calhar arqueologia. Embora os meus pais quisessem que seguisse medicina.
- Vai! Durante os próximos 20 minutos eu faço as perguntas que quiser e tu respondes a seguir és tu. Pronta?- Acenei com a cabeça.- Qual... o teu gelado preferido?
Olhei surpresa.
- Responde.- Pediu com um mesmo lindo sorriso que ele sempre fazia desde que o conheci.
- Humm... Café.
- Ok. Deixa-me ver, série favorita?
- Charmed ones e Gossip girls.
- Animal?
- Selvagem ou doméstico?- Perguntei entretida.
- Selvagem.
- Chita.
- Banda?
- Nickelback.
Os outros acabaram por adormecer mas nós não, continuamos por duas horas com perguntas que agora pouco importavam. Descobri que adorava, tal como eu ver os simpson, parecia até que nos conhecíamos à meses e não há apenas dois dias.
- "Estamos de volta caros ouvintes."- Disse a voz masculina.
- Pessoal acordem.- Chamei.
-" E cá estamos nós são e salvos por mais umas horas. Soubemos à pouco que Cavaco Silva e José Sócrates já sairam do país, mais uma vez fazendo o seu papel de santos enquanto nos abandonam neste inferno."
- Era de esperar.- Comentou António.- Nem sei como não o fizeram mais cedo.
-" Mas como nós não vamos a lado nenhum, iremos falar do vírus. Sara."
-" De onde e como apareceu? Também gostaríamos nós de saber."- Fala agora a voz feminina.- "No entanto sabemos como actua e se espalha. Como já devem ter percebido não se espalha pelo ar. O que é um alivio.
"É o nosso sangue que em contacto com o sangue ou a saliva destes animais faz que fiquemos como eles. Após estarmos em contacto com o vírus durante algumas horas, temos dois destinos ou morremos ou morremos e depois ressuscitamos como um deles. Quando somos um daqueles monstros não há volta a dar, só queremos uma coisa. Comer, e não é qual quer coisa como já perceberam, é carne viva... É triste mas é assim."
"Peço-vos agora que façam 1 minuto de silêncio em memória de todos os que morreram e de todos os que perderam para serem apenas mais um daqueles monstros que tanto vagueiam por aí em busca de comida."
Todos fizemos silêncio. Todo o mundo que eu conheci está morto agora, nunca nada irá voltar ao normal quando tantas pessoas que conhecemos e amamos devem estar mortas ou andando por aí fugindo deste inferno que abateu sobre a terra.
O radio recomeça a emitir vozes.
" Como será quando isto tudo acabar?" Pergunto mais uma vez para mim.
-Vira ali. É mais rápido.- Sugere Fernando.
Viro e mais um zumbi tenta sem sucesso perseguir o carro.
- Bem é melhor descansarem a viagem até Caldas da Rainha vai ser longa.- Pois era nessa pequena cidade que os meus pais e do Fernando nos aguardavam.