Todos entramos no carro. Lá atrás ficaram um pouco apertados mas pelo menos mais seguros do que antes.
-Não me disseste que tinhas companhia.
-Eles ajudaram-me era o mínimo que podia fazer.
O carro já andava, as duas portas estavam trancadas embora não fosse grande ajuda. Por onde quer que passássemos aqueles monstros tinham deixado rasto. Podíamos vê-los na rua andando, e quando passávamos aceleravam o passo em nossa direcção. Não adiantava de muito seus passos eram lentos ainda que muitos tinham sucesso na caça de sua comida.
-André onde mora a tua mãe?- Perguntei.
-No bairro alto.- Respondeu num leve sorriso.
-Então bairro alto vai ser o nosso primeiro destino.- Informei.
-André não é? Eu estava lá quando tudo começou. E aquilo está um desastre, mil vezes pior do que aqui. Não há maneira de alguém ter sobrevivido aquilo.- Desanimou Fernando.
-Mano, tu sobreviveste.- Disse-lhe.
-Mas eu é outra situação.
-Outra situação como hã? A mãe dele pode estar viva e nós vamos lá. Se não nos quiseres levar nós saímos. Eu e o André arranjamos maneira de lá chegar.- Gritei-lhe.
-Marina, calma.- Falou Diogo.
-Mana, vou por o André lá e depois mesmo que consigamos como vai ser!? Vou meter cada pessoa neste carro a um sitio, tipo táxi. Não há maneira de sairmos vivos assim.
-Ele é capaz de ter razão.- Disse Mateus.
-Pois tenho. De certeza que os teus amigos preferem um lugar seguro onde nos possamos esconder.- Pensou Fernando concluir a conversa.
-Não tu não percebes, e se fosse os nossos pais achavas justo?- Perguntei.
-Os nossos pais são uns traidores eles não contam.
-Uns traidores?- Disse confusa.- Uns traidores como?
-Esquece. Ok venceste. Quem quiser fica no bairro alto os outros podem vir connosco.- Por fim concordou.
Feliz com a vitória não quis insistir na história dos nossos pais. Olhei para trás e pude trocar um olhar de felicidade e esperança com André. Quem sabe a mãe dele ainda pudesse estar viva.
Tudo parecia um sonho, um pesadelo. Mas porque é que eu não conseguia acordar. No banco de trás André e António davam comida, que tinham na mochila, a Mateus e Diogo, comendo também eles.
Fernando e eu éramos o únicos que não comíamos. Eu não conseguia, um nó na garganta impedia-me de ter fome.
O nosso carro era um Audi preto, o modelo não sei dizer nunca percebi muito de carros. Embora se fosse preciso sabia guia-lo. Meu pai havia insistido que aprendesse, se pensa-se bem ele tinha insistido para que aprendesse muitas coisas. Era ginástica, hipismos, escalada, guiar carros e motos, entre outros. Com o meu irmão era a mesma coisa tirando ginástica que tinha substituindo por artes marciais. O Fernando nunca se importaram, bem eu também não. Mas a sua paixão era o surf.
-Espero que saibas o que estás a fazer.- Disse o mesmo.
-Hã?- Falei distraída.
-Esquece.
-Já esqueci.
Agora parada e com a adrenalina a fugir-me do corpo as emoções começaram a vir a tona e eu começava agora a ficar verdadeiramente assustada. E ver aqueles monstros na rua rodeados de sangue e parte de corpos humanos à espera de encontrar comida não ajudava. Era horrível, ninguém que não estivesse a viver este inferno nunca poderia entender o que todos estávamos a passar. O medo ,que era bastante, e a luta pela sobrevivência exigia grande coragem de um ser humano. E apesar de nem eu, nem o resto de nós estar a viver este inferno à muito tempo, para nós já era o fim do mundo.
Estávamos a chegar ao lugar onde o André tinha indicado. A medida que avançávamos mais monstro havia.
-Isto aqui está horrível.- Declarou António.
-Eu avisei.-Afirmou Fernando com um ar zangado e preocupado, como eu nunca o tinha visto. Normalmente ele era amável e brincalhão. Eu só queria que tudo volta-se a ser como à algumas horas atrás. Em que as pessoas estavam sempre a pensar no trabalho e em suas vidas normais.
-Vira ali.- Indicou André para uma ruela que se encontrava a nossa esquerda a uns 30 metros.
Fernando seguiu conforme indicado e mais monstros surgiram em nossa direcção.
-Como vamos sair do carro?- Perguntei.
-Como vamos não. Como o André vai?- Tentou corrigir Fernando. Quem o conhece-se agora pensaria que ele era um insensível.
-Eu não vou deixar o André sozinho.- Disse.- Tu disseste quem quiser fica neste lugar e quem quiser vai contigo.
-Tu não entraste em questão. Tu vais comigo.
-Eu vou com ele não te preocupes.-Tentou.
-Obrigado Diogo, és um querido.- Agradeci.
-É pena que nos tenhamos que separar.- Desabafou António.
-Está resolvido então. O Diogo e o André ficam. Nós vamos.
-Não lá por o Diogo ir não quer dizer que eu não vá.-Contradigo.- Eles estavam comigo quando tudo começou, são meus amigos. Eu não posso abandona-los e mesmo que pudesse não ia.
-E eu estava lá quando tu nasceste. Mas a MIM já podes.- Gritou o meu irmão ainda mais zangado do que antes.
Após os gritos o carro ficou mergulhado num silêncio onde o motor do carro o desfazia.
De repente os monstros começaram a desaparecer.
-O que raio se passa aqui? Porque que é que aqui não há monstros?- Perguntou Diogo assustado como todos nós.
Olhando para todos os lados, o carro avançou devagar.
Eram poucos os monstros que se via a andar, a maior parte estava morta no chão.
Então começaram a surgir vultos nos telhados das casas à nossa volta. Eu pude reparar que todas as casas tinham uma cerca à volta ou um muro.
-Mano se calhar devíamos ir embora.- Disse-lhe.
-Esperem eu conheço são meus vizinhos, parem o carro.- Pediu André.
-Não sei, ainda à daquelas coisas aí.-Disse Fernando.
-Meu, eles tem armas para o carro e deixa o André falar com eles.- Ordenou Diogo.
O Fernando para o carro, os monstros já vinham em nossa direcção. André saiu do carro e eu automaticamente também saí ignorando os protesto do meu irmão.
-Pessoal sou eu. O André.-Gritou.
Os vultos demoram um pouco para se mexerem. Então pude ver as suas caras, chamando-me à atenção uma rapariga morena que não parecia ter mais de 18 anos.